terça-feira, março 21, 2006

Sobre Falcão e os vários Falcões














Welcome to the jungle
It gets worse here everyday
Ya learn to live like an animal
Guns n’ Roses


O assunto recorrente neste início de semana nas cidades foi o documentário “Falcão” exibido pelo Fantástico, da Rede Globo. As pessoas comentam um tanto surpresas, um tanto indignadas, que o Rio de Janeiro chegou a uma situação que “não tem mais jeito”.

Primeiro, ledo engano: Esta situação não ocorre apenas no Rio de Janeiro. Acontece no Brasil inteiro. Não é apenas a segurança, a educação, o Estado do Rio de Janeiro que estão falidos: há uma falência nacional de valores, referências e perspectivas.

O que abordarei neste post tem relação com perspectivas de vida. Portanto, peço paciência aos eventuais dois ou três leitores que lêem estas mal-digitadas linhas e desde já agradeço por terem chegado até aqui.



PERSPECTIVAS

Vamos direto ao ponto: qual o modelo de ascensão social almejado pelo brasileiro, hoje? São os padrões de sucesso veiculados pela TV: Pagodeiro, modelo, jogador de futebol, big brother.

As considerações sobre educação neste post referem-se principalmente a escola pública, por ser elemento estratégico na construção de um novo país comprometido com ideais de desenvolvimento – não apenas econômico, mas social, cultural e político. Escola é política. Educação é política.

Quem assistiu ao filme “Cidade de Deus” certamente não surpreendeu-se tanto com o documentário exibido pela Rede Globo. Está tudo ali: a banalização de vida e morte, as crianças sem infância, os verdadeiros referenciais dos morros e favelas brasileiras (o fato de ser no Rio de Janeiro não a torna detentora do título de ‘capital do tráfico e bandidagem’, como alguns já apelidaram a ainda cidade maravilhosa).

Dentre dezenas de comentários que ouvi e li nestes dias, todos foram unânimes em apontar a educação como talvez a mola mestra para um futuro diferente para aquelas crianças e jovens. Há até quem aponte a educação como a salvação da pátria.

Educação é dever do estado, da família e da escola. Acontece que esse dever vem sendo cumprido, na maioria das vezes, apenas pela escola. O estado eximiu-se da responsabilidade há tempos ( basta ver a abundância de escolas particulares e faculdades espalhadas por aí); A família, quando existe na vida destas crianças e jovens, está muito ocupada para pensar em escola e o que o filho anda fazendo por lá. Sou professor também de escola pública e sei do que estou falando: basta marcar uma reunião de pais e poucos, pouquíssimos aparecem. Há diretores que se dispõem a marcar reuniões aos domingos. Sem sucesso.

Já começa por aí: falta de comprometimento das partes responsáveis pela educação. A própria escola falha em muitos aspectos, mas é quem carrega sozinha esta responsabilidade. E com parcos recursos.

Segundo ponto: vamos supor que algum governo invista em educação, equipando e reformando escolas, promovendo cursos de formação contínua aos professores, pagando salários dignos, reorganizando currículos... e que os pais participem ativamente da educação dos filhos. Seria ideal? Seria essa, enfim, a solução para a falência geral do Brasil?

Seria um avanço significativo, sem dúvida, mas falta muita coisa. Por que os falcões espalhados pelas cidades de Deus brasileiras entram neste círculo de morte tão banal entre eles?

Porque a única saída, a única perspectiva que eles tem é justamente essa oferecida pelo tráfico. É muito fácil para quem está de fora apontar as saídas mais simplistas como “vai quem quer” ou “ não aproveita as oportunidades da vida”. A escola é defasada em seu próprio currículo ( nem por culpa da escola, mas do sistema promovido por homens e mulheres em salas de ar condicionado sem nenhum contato com as reais necessidades brasileiras) e falar em vestibular nestas comunidades, por exemplo, é batalha quase perdida.
Quem quer e tem a perspectiva real de ser médico, advogado, arquiteto é o jovem de classe média, muitas vezes com o referencial familiar.

Trabalho com diversas pessoas...com bandidos da pesada, com jovens revoltados, com meninas que já sofreram todos os tipos de abuso imaginários, com jovens esperançosos... tenho alunos de todos os tipos. Poderia enumerar aqui várias histórias que vi e já ouvi e certamente seria chamado de mentiroso. Mas vou apenas descrever uma atividade que fiz no começo do ano letivo em uma sala de 1º ano do ensino médio em uma escola pública da periferia.

Era apenas um teste diagnóstico de língua inglesa, para saber de que ponto deveria começar com eles ( geralmente é com o verbo to be, mesmo...). Esta é a primeira fase – logo, vem a segunda, com perguntas pessoais. Pergunto sobre o tipo de música que eles mais gostam ( pagode, disparado), se gosta de assistir filmes legendados ou dublados ( muitos não sabem a diferença), o que gostam de fazer no final de semana ( assistir TV foi a resposta mais freqüente).

No final, faço a seguinte pergunta, até para conhecer o perfil do meu aluno: O que você fez de marcante nestas férias?

A maioria das respostas: “Nada”. “Não fiz nada marcante”. Duas respostas chamaram a atenção (como foram escritas):


Professor, não posso ter férias porque minha mãe preçisa que eu ajude ela a compra comida”.
Fui no enterro do meu irmão que foi asasinado sinto falta dele”.

Para quem acha que tudo isso não faz parte de “sua” realidade, basta olhar para o lado.


Jaime Guimarães, também conhecido como Ministro Veiga ou Groo é professor, mas dispensa o título de "salvador da pátria".

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